A Literatura, a Política e a Violência

     Um senhor aposentado que organiza seu cotidiano entre leitura de autores independentes no limbo e conversas com seus amigos num bar almeja estar imune ao ambiente de crescente caos social. Não será tão fácil assim; o mundo mudou, a humanidade mudou… Contos do verso, universo, multiverso Duchartre, o novo romance de Caranova, rastreia a violência até as entranhas das estruturas outrora sólidas do arcabouço social. Toda a matéria, mesmo a mais compacta rocha, é porosa e acessível à infiltração da gosma que corrói e destrói por dentro. Aposentar-se é uma ruptura. Diante de sua nova condição, Duchartre se impõe a uma insólita missão; rompe com os cânones clássicos e decide libertar os escritores marginalizados pela esmagadora máquina editorial de que fazia parte. Talvez quisesse se iludir pela causa, visto que saíra da parte ativa do seu negócio, ou mesmo flanar como um iluminado inútil.

     O tempo real de Contos… é a conjuntura contemporânea marcada pelo crescimento da extrema-direita no cenário nacional e internacional. O absurdo da estupidez humana é de certa forma tediosa, porém o papel de ser leitor como escapismo tenderá ao fracasso. Mais cedo ou mais tarde, Duchartre, em sua nova condição, absorverá isto e sentirá que, livre, o absurdo é mais evidente: vem pela política e será enfrentado pela própria política. O absurdo de seu mundo particular, o seu apartamento cheio de colunas de livros de autores de romances fechados, não é paralelo ao do mundo globalizado. Caranova engendra o leitor do leitor e faz ambos se fundirem ao compartilhar a leitura dos mesmos romances. A cumplicidade literária estabelecida mexerá com o leitor também quando Duchartre lidar com o dilema entre relativizar ou se entranhar no cenário perturbador do mundo inóspito. Os que protestam, correm o risco, pegam em armas ou se acomodam, todos sofrerão os efeitos da condição coletiva degradada.      Chegamos então ao ponto crucial de Contos…, a violência como construção humana. O romance lida com o simulacro de horror que é buscado quando se assiste a um filme no qual um tubarão mata e mutila corpos ou se salta de um bungee jump de uma ponte a oitocentos metros do solo, e incomoda os leitores fictícios e reais tocados pelo dedo da violência estrutural mesmo após o fechamento do livro. Como reagem? Silêncio, cumplicidade ou insurgência? Difícil saber; o melhor é retornar ao primeiro capítulo e reler Contos…

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