TRÊS ROMANCES DESTE SÉCULO QUE VALEM A PENA
- PSICOPSIA
Autor: Caranova.
Lançamento: 2020.
O que sobra quando descartamos todos os adereços, dissimulações e rituais sociais de uma atividade? É isto que Caranova parece conseguir ao estruturar seu romance (ou antirromance?) com soluções para a narrativa que descascam as repressões usuais e desnudam as pulsões mais imediatas. Mais do que um romance, Caranova institui o universo interior de cada personagem e suas idiossincrasias afetivas durante o cotidiano de médicos num grande hospital de referência.
Aliás, semelhante ao cortiço do romance naturalista homônimo de Aluísio Azevedo, o hospital é o personagem onipresente onde se desenrola entre outras a residência em cirurgia geral. O leitor terá a perspectiva imediata dos personagens já que a narrativa está na primeira pessoa do presente. Contudo ainda tem mais: a perspectiva é cambiante, pois haverá a troca de narrador sem prévio aviso — a troca apenas acontece. O leitor mais atento notará então uma mudança no ritmo, no estilo, no encadeamento dos períodos de acordo com a personalidade do personagem da vez. Por isso, à medida que eles se encontram, o leitor perceberá uma certa vantagem em relação ao narrador; por outro lado, comumente as inúmeras situações postas disparam evocações, verdadeiros flashbacks narrativos, desvelando o trabalho psicológico particular de cada um.
Um detalhe digno de nota é a sensação do leitor ao avançar pela história de um amadurecimento gradual e quase imposto dos jovens médicos perante as constantes vicissitudes diárias que exigem uma pronta atitude.
A despeito de parecer um romance médico, “Psicopsia” extrapola e foge dos clichês. A bolha médica é rompida aos poucos por “fugas” narrativas quando os personagens relativizam suas ações e suas mutantes convicções. Existe um marco temporal, o início dos anos noventa, quando ocorriam, muitas vezes naturalmente, situações tóxicas; Caranova não as contorna e nem suaviza estes “pormenores”, como também, as transgressões éticas que desembocam num realismo insultuoso. Por exemplo, em determinado momento acompanhamos um personagem hiperativo de comportamento brincalhão cujas piadas ofensivas, tão em voga nas rodinhas exclusivas, chocam tanto como uma situação trágica.
Enfim, “Psicopsia” é de difícil classificação, pois, além da carga psicológica e do mundo da cirurgia, transpõe para dilemas filosóficos mais amplos sobre vida e morte. Talvez seja um romance de formação coletiva catalisada pela eterna celeridade do tempo cirúrgico.
- 2666
Autor: Roberto Bolaño
Lançamento: 2004.
A violência apenas aumenta. Existe alguma esperança para a humanidade?
“2666” é um romance estranho e irregular a começar pelo seu título — em suas páginas ou em anotações de seu falecido autor, o chileno Roberto Bolaño, não há uma alusão sequer. Presume-se ser uma data pessimista por causa dos apocalípticos três seis repetidos. Peripécias de autor que, como o aclamado diretor de cinema Cristopher Nolan, deixa alguma coisa ser resolvida pela perspicácia do seu querido leitor.
O romance é dividido em cinco partes quase independentes cujo elo principal é uma fictícia cidade no deserto mexicano perto da fronteira com os Estados Unidos mergulhada na violência e numa onda de assassinatos em série de mulheres. Outro elo que amarra as partes é um furtivo escritor alemão com o extravagante nome de Benno von Archimboldi.
Na primeira parte quatro críticos europeus especializados em literatura alemã convergem no interesse pela obra do misterioso escritor e partem para descobrir seu paradeiro. A quarta parte é a mais violenta com descrições sumárias dos brutais assassinatos e as investigações da polícia local. A imersão em cada recanto da cidade demonstra um submundo perverso como os piores recantos da literatura “noir” só que escaldado pelo intenso sol do deserto de Sonora. A última parte acompanha a história de Archimboldi com a Segunda Guerra de plano de fundo.
O estilo irregular de 2666 pega o leitor na Europa, leva-o para o México e o devolve ao Velho Continente com personagens inusitados e uma profusão de mini-histórias incrustadas em meio ao texto. No fundo, Archimboldi parece uma distração anunciada pelos diversos personagens que são abandonados durante a trama e nos faz pensar neste hiato entre o nosso contemporâneo violento até a fatídica data-título.
- AS CORREÇÕES
Autor: Jonathan Franzen.
Lançamento: 2001.
Entre as palavras correção e correções a diferença não está apenas na flexão de número. Correção é um termo mais definitivo e abarca uma grande guinada de rota que muda uma vida inteira. Correções são mais mundanas; estão presentes comumente no cotidiano de cada indivíduo ou família ordinária.
Como o nome indica, o desajuste é o tema principal deste romance; paira nele uma sensação de nave fora de órbita que não causa desconforto, pois qual família não precisa de pequenas correções de rota?
A saga dos Lampard, uma família de classe média, é contada no momento em que cada filho cuida de sua vida enquanto os pais, Alfred e Enid, tocam sua velhice numa pequena cidade do meio-oeste americano.
Alfred, outrora um engenheiro de uma ferrovia que explora as linhas da região, encara sua aposentadoria com estoicismo até sentir a chegada de uma doença degenerativa. Enid tem o fardo de cuidar de Alfred e também das aparências de sua família na provinciana Saint Jude. Gary é o filho mais velho e enfrenta dificuldades no seu casamento que o leva a uma não reconhecida depressão. Chip e Denise completam a família; o primeiro perde seu emprego de professor ao se relacionar com uma aluna e a segunda tem uma promissora carreira como chefe de cozinha de um grande restaurante, mas, como na aparente normalidade de Franzen, o destino não é programável.
As situações individuais são habilmente contadas e nos fazem perceber que cada peça da família vive seus problemas e dependem de correções diferentes que não chegarão a tempo antes do desejado encontro de todos exigido por Enid na ceia de Natal.
