O romance de adultério do século XIX

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.” Esta é a famosa abertura de “Ana Karênina” de Tolstói. A literatura no século XIX era um bom espelho da sociedade economicamente mais ativa vigente que era dividida entre a alta burguesia e uma decadente, mas ainda influente, aristocracia. As artes estavam a serviço deles, pois eram os grandes consumidores. A maioria dos romances era publicada em capítulos em revista periódica ou jornais. As mulheres abonadas constituíam uma considerável fatia desses leitores, pois tinham o tempo e a solidão necessários para o hábito da leitura.

Os valores da tradicional família oitocentista subjugavam a mulher à autoridade paterna e depois, pela vontade deste, a um marido que lhe desse antes de tudo estabilidade financeira. Os romances, sem a concorrência do cinema ou rádio, eram os portais de escape. Era a época do Romantismo e suas paixões exacerbadas e do Realismo que expunha os costumes e as dissimulações sociais.

Entre os temas tabus, que ao mesmo tempo chocavam e rendiam interesse de consumo, estavam o adultério feminino. Bráulio Tavares considera que existe de fato o subgênero romance de adultério, não obstante a crítica não evidenciar isto. Assim ele enfatiza: “aquele em que uma instituição crucial da sociedade, o casamento patriarcal e monogâmico, é ameaçado pelo comportamento individualista e transgressor de uma ou mais pessoas.”

A dica deste blog é para três romances: “Madame Bovary” de Gustave Flaubert, “Ana Karênina” de Liev Tolstói e “Quincas Borba” de Machado de Assis.

Madame Bovary

É curioso Flaubert abrir o romance com Charles Bovary, o futuro marido de Ema, a personagem principal. Acompanhamos Charles, um cara diferentão nada pró-ativo que se deixa influenciar por sua mãe, cursa medicina e casa-se com uma viúva mais velha. Após a morte desta, entra em cena Ema, filha de um próspero paciente de Charles. Ema encara o casamento como oportunidade de preencher seus anseios por uma vida menos monótona a que estava fadada, porém rapidamente se desilude com o seu marido e com a própria instituição que a obriga a ser infeliz. A procura de Ema por amantes sem nobres propósitos fez o romance ser duramente atacado e Flaubert enfrentar um tribunal de justiça. Ao contrário dos amores idealizados da época romântica, Ema assume seus amantes como uma liberação feminina da opressão de uma sociedade que exigia uma linha de conduta.

Ana Karênina

O romance também começa com um personagem secundário, Oblonsky, irmão de Ana — um padrão de construção da história presente em vários romances. Encontramos Oblonsky preocupado como lidar com sua infidelidade descoberta — assediou a preceptora de seus filhos —; ainda mais que sua esposa sente extravasar sua paciência e pensa seriamente na separação. Diferentemente de “Madame Bovary”, entramos na decadente aristocracia russa sob o império do czar Alexandre III. Ana surge como uma mulher casada e segura de si que está decidida a abdicar de sua vida estável pela paixão pelo impetuoso e jovem Conde Vronsky. Apesar de secundário, Oblonsky faz a ponte com outro personagem que segue uma história paralela. Trata-se de Levine, uma premonição das profundas mudanças às portas da sociedade russa, um camponês que administra com orgulho uma propriedade rural e sinaliza o contraste entre a ociosidade da nobreza decadente e a simplicidade dos trabalhadores da terra.

Quincas Borba

A habilidade de Machado de Assis em tecer inconspícuas anormalidades até integrar um conjunto perverso que funciona como uma regra não escrita do jogo é única. Rubião, um provinciano professor de Barbacena, decide fixar residência no Rio após herdar uma fortuna e o cachorro Quincas Borba, homônimo do seu falecido dono. Antes de morrer, seu louco amigo o instou a propagar sua linha de pensamento filosófico: o Humanitismo. Sua dialética era uma paródia das correntes de pensamento que surgira à época principalmente o darwinismo e o positivismo. Uma fase dominava a compreensão de Rubião dessa nova doutrina: “ao vencedor, as batatas!”

Logo cedo entra em cena Sofia, uma linda mulher casada com Cristiano Palha, o melhor amigo de Rubião no Rio. Sofia articula um jogo de sedução bem ao estilo machadiano cheio de ambivalências nas quais as culpas não são evidentes nem consumadas. O fio de interesse da história, o seu possível romance com Rubião, é conduzido sagazmente por ela. Capitu só surgiria oito anos depois.

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