CEM ANOS DE “ULISSES”

Sua escrita não é sobre alguma coisa. É a coisa em si.

 Samuel Beckett

Lançado em 2 de fevereiro de 1922, “Ulisses” integra a maioria das listas de maiores romances da história. Após escrito, James Joyce levou um certo tempo para publicá-lo devido às negativas de várias editoras. Conseguiu pelos esforços de Sylvia Beach e sua editora especializada em escritores independentes em Paris, a Shakespeare and Company. Após a publicação enfrentou a crítica ferrenha de alguns famosos literatos como George Bernard Shaw e a proibição de circulação nos Estados Unidos por ser considerado pornográfico.

E por que tudo isso?

Convém alertar que “Ulisses” é considerado um romance difícil de vanguarda para quem pretende aceitar o desafio de sobreviver às suas aproximadamente 265.000 palavras. É uma obra para quem está disposto a imergir nela e depois voltar, ler, procurar por textos explicativos etc. A experiência da primeira leitura de “Ulisses” é como montar um quebra-cabeça de 10.000 peças sem conhecimento prévio da imagem. A percepção de desamparo e tarefa intransponível é uma fase praticamente inevitável até para os contumazes. O alívio de descobrir com bastante sofrimento o encaixe de uma ou mais pedras vai abrindo caminhos e, paulatinamente, várias vertentes se apresentam. Após o término a sensação é de esforço, grande recompensa e a vontade de fazer tudo de novo, agora, em outro patamar de compreensão do que tudo aquilo representa. Na remontagem a consulta às críticas especializadas amplia a experiência e muitos, efetivamente muitos, detalhes que fugiram à primeira percepção vêm à tona.

Portanto, para quem pretende embarcar no desafio de “Ulisses”, melhor fazê-lo sem muita informação prévia. O fato de se perder “um pouco” não será demérito, pois acontece até com eminentes críticos. Após o final, procure pela farta quantidade de textos sobre o romance principalmente em língua inglesa. Em português há o excelente “Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce” de Caetano Galindo.

Todavia “Ulisses” é um livro com muito humor, pois é uma paródia do clássico “Odisseia” de Homero que narra a saga do grande herói Ulisses que enfrenta durante anos a ira dos deuses para regressar à sua Ítaca e aos braços da sua amada e fiel Penélope que rejeitara estoicamente o assédio de seus pretendentes. A saga heroica é transposta para um único dia em Dublin, 16/06/1904. Neste dia, Leopold Bloom sai de sua casa pela manhã e só retorna de madrugada para dormir ao lado de sua esposa.

Ulisses é justamente aclamado como um marco do modernismo pelas suas inovações. Além disso, é um romance abarrotado de informações sem explicações condescendentes que obrigam o leitor a retornar à obra várias vezes. O estilo da escrita varia de acordo com o horário do dia, com o capítulo e com a consciência das personagens. Por exemplo, um dos capítulos tem a forma de uma sinfonia, apresentando partes do tema e desenvolvendo-as em seguida.

O contraste entre a aventura épica de Ulisses e o insólito dia de Bloom é atenuado pela grandiosidade da inclusão de uma cidade inteira.  Sua interação com os dublinenses transpõe o entendimento da obra para uma metáfora do homem e sua história universal. O romance revela ainda Molly Bloom, uma forte personagem feminina comparável à machadiana Capitu.

Críticos de todo o mundo têm-se debruçado em analisar seus inúmeros enigmas; alguns difíceis e outros impossíveis de serem traduzidos. As traduções são um capítulo à parte; as soluções para os inúmeros jogos linguísticos muitas vezes colocam o tradutor numa encruzilhada de optar pela “forma ou conteúdo” e amiúde alterando a coloquialidade ou os experimentos estilísticos característicos do texto. Por exemplo, um de seus capítulos intitulado “Gado do sol” se passa numa maternidade e simboliza a gestação e nascimento da língua inglesa (estilo) ao mesmo tempo que narra o encontro de Leopold Bloom com um grupo de estudantes de medicina bêbados dentre os quais Stephen Dedalus. Isto dispara um sentimento paternal protetivo a Bloom e as memórias de seu filho morto (conteúdo). As traduções disponíveis são de Antônio Houaiss, Benedita Pinheiro e Caetano Galindo.

Em Dublin, é possível fazer o percurso de Bloom através de marcações presentes nas calçadas e ruas.

Dicas de romances na mesma linha de Ulisses:

“Psicopsia” de Caranova.

“Grande sertão: veredas” de Guimarães Rosa.

“O som e a fúria” de William Faulkner.

“Mrs. Dalloway” de Virgínia Woolf.

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