Romance policial, a armadilha do enredo
Subjacente à aparente nata onde pisam os críticos que torcem o nariz para os romances policiais, vagueiam entidades obscuras que manipulam como um ilusionista ardiloso. Seu poderoso efeito tornou-se um dos poderosos pilares estruturantes do enredo em prosa usados por célebres autores por séculos. (Para ser mais específico, estou falando de mistério, os outros pilares são: paixão, realismo, fantástico e ação.)
A atração quase hipnótica que aprisiona toda a história em torno de um mistério fez reagir os lapidadores da erudição contra a displicência para com as outras instâncias comportamentais ou afetivas. Não faltaram motivos para os romances policiais serem rechaçados ao patamar de subliteratura, porquanto o tema foi exaurido em uma fórmula básica: a apresentação de um problema, a presença de um herói insuspeito e a garantia da resolução final. Além ou por causa disso os textos de romances, novelas ou contos se tornaram curtos, fáceis e ausentes de elementos acessórios. O escritor americano Van Dine, criador do detetive Philo Vance, chegou a escrever um conjunto de normas que seriam o dogma do genuíno escritor policial intitulado “Vinte regras para escrever histórias policiais”.
Faço a ressalva que, como arte é inovação, os melhores “policiais” surgem quando o autor quebra o pacto sagrado. Alguns escritores, roteiristas e cineastas optaram por uma ruptura radical neste sistema engessado entregando o criminoso em fase precoce do enredo gerando um anticlímax que liberava o leitor (ou espectador) e a própria obra para outras facetas da experiência literária.
É notório que o sucesso popular leva a um excesso de quantidade constituído por historietas de qualidade duvidosa. A enxurrada de clichês desviou por muito tempo o ânimo dos críticos de se debruçar sobre o fascínio gerado por este tipo de texto.
“Os crimes da rua Morgue” de Allan Poe, lançado em 1841, é considerado o marco dos romances policiais apesar de ensaios críticos apontarem para origens mais antigas como, por exemplo, o escritor romântico alemão E. T. A. Hoffman. O marco na verdade aponta para um ramo proveniente da literatura de assassinatos, crimes e detetives desde “Édipo-rei” de Sófocles passando pelo renascimento até os romances góticos do século XVIII. Aliás, há a típica e tradicional escola de romance policial, da qual podemos sequenciar Conan Doyle, Agatha Christie e a literatura noir americana (Dashiell Hammett e Raymond Chandler), porém encontramos incursão na técnica policial em alguns medalhões da “alta” literatura como Machado de Assis, Hemingway, Dostoiévsky e Jorge Luis Borges. Como não enquadrar “Crime e castigo” como um romance policial, caros amigos?
Portanto gosto de romances policiais e uma explicação razoável para seu sucesso talvez esteja próxima da do gênero de terror; há um Mal, todavia, ao contrário do terror, ele se dissemina abaixo do nível da nata da normalidade de uma sociedade real e, enquanto não se resolve a narrativa, poderá estar em qualquer um. No decorrer dos acontecimentos então o morto praticamente não importa mais e emergem os conflitos entre os personagens que nunca mais serão como antes para o leitor.
Nos últimos anos, houve um justo resgate do gênero com o reconhecimento da crítica e da incursão endêmica de vários escritores de qualidade nos quatro cantos do mundo como o brasileiro Garcia-Roza, carioca, falecido em 2020, criador do detetive Espinosa e vencedor do prêmio Jabuti de 1997 com “O silêncio da chuva”.
Dicas dos melhores livro que li sobre o gênero:
Agatha Cristhie
O assassinato de Roger Ackroyd.
Cipreste triste.
Convite a um homicídio.
Raymond Chandler
O assassino na chuva (contos).
O longo adeus.
Dashiell Hammett
O falcão maltês.
Ellery queen
A última mulher de sua vida.
Umberto Eco
O nome da rosa.
